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privacidade · IA

Guia Seguro.

O que não partilhar agora que a IA lê tudo o que já publicaste.

A mudança que ninguém te explicou

Durante anos a pergunta foi sempre a mesma: “esta publicação é perigosa?” E quase sempre a resposta era não. Uma foto no parque não é perigosa. O primeiro dia de escola não é perigoso. O bolo de aniversário com cinco velas não é perigoso.

Essa pergunta deixou de servir.

Hoje existem sistemas que leem os dez anos de coisas que publicaste, mais o que a tua mãe publicou, mais o que a tua cunhada publicou, e devolvem tudo junto numa resposta de três segundos. Nenhuma peça sozinha te expõe. A soma expõe.

É por isso que este guia está organizado por conjuntos de informação e não por fotografias.

A pergunta nova

Se alguém juntasse isto a tudo o resto que eu já publiquei, o que é que ficava a saber sobre mim e sobre quem vive comigo?

Parte 1

Os seis conjuntos que nunca devem sair

1

Nome completo ao lado da data de nascimento

Teu, do teu filho, da tua mãe. Esta dupla é o alicerce de quase toda a fraude de identidade. Com nome completo e data de nascimento abre-se conta, pede-se crédito, valida-se identidade ao telefone. Nas crianças é pior, porque o registo delas está limpo e ninguém vai verificar o crédito de um miúdo de sete anos durante a próxima década.

2

Tudo o que identifique a escola ou a creche

Farda, camisola com logótipo, autocolante da mochila, a fachada do colégio ao fundo, o nome da professora, o nome da turma. Isto junta-se com o ponto seguinte e dá a alguém a morada onde o teu filho está, todos os dias, à mesma hora.

3

Rotinas com hora certa

“Todos os dias às oito e meia deixo-a aqui.” “Terças e quintas é natação.” “Vamos sempre ao mesmo café ao sábado de manhã.” Uma frase destas deixa de ser uma memória gira e passa a ser um horário. O mesmo vale para publicações em direto: um Story a dizer onde estás agora é também um aviso de que não estás em casa.

4

A geografia da tua casa

A fachada, o número da porta, a placa da rua ao fundo, a matrícula do carro, a vista da janela, a caixa do correio, o cartão da encomenda em cima da mesa. Uma única fotografia com a vista da tua sala pode chegar para identificar o prédio. As plataformas apagam os metadados de localização da versão que os outros descarregam, por isso o risco real não está aí. Está no que se vê dentro da imagem.

5

Documentos e códigos

Cartão de cidadão, carta de condução, NIF, cartão de embarque, etiqueta de encomenda, receita médica, boletim de vacinas, talão do multibanco. O cartão de embarque merece um aviso especial: aquele código de barras contém o localizador da reserva. Com ele entra-se na tua conta da companhia aérea, vê-se o teu telemóvel, os teus voos futuros e quem os pagou. Foi demonstrado publicamente há mais de dez anos e continua a acontecer todos os verões.

6

Fotografias do corpo dos teus filhos

Banho, praia, fralda, casa de banho, primeiro biquíni. Mesmo em conta privada. Mesmo entre “só amigos”. Estas imagens são recolhidas e republicadas fora do sítio onde as puseste, e não voltam atrás. Isto está documentado por organizações que fazem exatamente este trabalho de rastreio.

Parte 2

O que nunca deves escrever dentro de um chatbot

Isto é diferente da parte de cima. Aqui não estás a publicar, estás a entregar. E vale para o ChatGPT, o Gemini, o Claude, o Copilot e o assistente que aparece dentro do WhatsApp e do Instagram.

A regra de base: assume que tudo o que escreves pode ser lido por uma pessoa da equipa e pode ser usado para treinar o modelo, a menos que tenhas ido às definições desligar isso.

Nunca escrevas

  • Palavras-passe, códigos de acesso, códigos que chegam por SMS
  • Dados bancários, IBAN, número e código do cartão
  • Número do cartão de cidadão, NIF, número de utente, número da Segurança Social
  • Relatórios médicos, análises e diagnósticos com nome
  • Dados de clientes ou de alunas sem autorização delas. Se tens um negócio, isto não é só bom senso, é o RGPD
  • Contratos, propostas e material que ainda não é público
  • Fotografias de menores para gerar caricaturas, versões em desenho animado ou retratos com IA

O último ponto é o que mais me preocupa neste momento, porque parece inofensivo e é uma moda. Ao carregares a cara do teu filho para uma ferramenta destas, deixas de saber onde essa imagem fica, quanto tempo fica e para que é usada.

Como reduzir o risco

Nas definições da tua conta de IA procura a secção de controlos de dados e desliga a opção de melhorar o modelo com as tuas conversas. E apaga as conversas antigas onde puseste coisas que não devias.

Parte 3

A auditoria de trinta minutos

Faz isto uma vez. Depois repete de seis em seis meses.

  1. 1

    Pesquisa-te

    Abre uma janela anónima e procura o teu nome completo no Google, e depois no separador de imagens. Vê o que aparece antes de te dizerem o que aparece.

  2. 2

    Volta ao início

    Vai às tuas publicações mais antigas, de 2012, 2014, 2016. É aí que está quase tudo o que hoje não publicarias.

  3. 3

    Procura os quatro sinais

    Fardas, matrículas, números de porta e nomes de rua. Passa as fotos com este filtro na cabeça e vais encontrar mais do que esperas.

  4. 4

    Vê onde te marcaram

    As fotos em que outras pessoas te identificaram também te descrevem. No Facebook e no Instagram podes rever e remover marcações.

  5. 5

    Abre os álbuns antigos do Facebook

    Os álbuns de há dez anos costumam estar públicos e ninguém se lembra deles.

  6. 6

    Vê os destaques dos Stories

    Ficam para sempre e as pessoas tratam-nos como se fossem temporários.

  7. 7

    Procura a tua cara

    Existem motores de busca por reconhecimento facial, como o PimEyes, que encontram fotos tuas espalhadas pela internet. Faz a pesquisa por ti própria, para saberes o que está lá. Estes serviços dizem bloquear pesquisas por caras de crianças, mas a proteção falha em adolescentes, por isso não a uses como garantia.

Parte 4

Definições para mudar esta semana

Nota importante antes de começares: os nomes destas definições mudam com cada atualização das aplicações. Se não encontrares exatamente estas palavras, procura pela ideia e não pela frase.

Meta · Facebook e Instagram

Oposição ao uso dos teus dados para IA

  • Vai à Central de Privacidade, procura a secção da IA da Meta e o formulário de oposição. Na Europa tens direito a apresentar esta oposição ao abrigo do RGPD.
  • Cuidado com dois pormenores: a oposição só cobre o que foste tu a publicar, e não cobre conteúdo teu que foi publicado por outra pessoa.

Marcações

  • Ativa a revisão manual de marcações e de menções, para nada aparecer no teu perfil sem tu veres primeiro.

Álbuns e publicações antigas

  • Muda a visibilidade das publicações antigas para amigos, de uma vez só, na secção de definições de publicações.

Instagram

Estado de atividade

  • Estado de atividade desligado, para não mostrares quando estás online.

Quem pode interagir contigo

  • Rever quem pode marcar-te, mencionar-te e enviar-te mensagens.

Localização

  • Tirar a localização das publicações, sobretudo das que são feitas em casa.

Conta privada

  • Se a tua conta é pessoal e não profissional, pensa a sério em pô-la privada.
Parte 5

Se já aconteceu alguma coisa

Linha Internet Segura · APAV

800 21 90 90, dias úteis das 8h às 23h, ou linhainternetsegura@apav.pt. Apoia vítimas e recebe denúncias de conteúdos ilegais online.

Denúncia de conteúdo com crianças

A mesma linha funciona como ponto de denúncia. Não partilhes o conteúdo com mais ninguém e não o guardes.

CNPD

A Comissão Nacional de Proteção de Dados, para queixas sobre uso indevido de dados pessoais em Portugal.

Direito ao apagamento

O artigo 17 do RGPD dá-te o direito de exigir que apaguem dados teus, e a imagem de uma criança é um dado pessoal protegido. Em Portugal isto está reforçado pela Lei 58/2019.

Remoção do PimEyes

O serviço permite pedires a exclusão das tuas fotos dos resultados.

Parte 6

Números para quando te disserem que estás a exagerar

1Barclays (2018)

Projetou que até 2030 a partilha de fotografias dos filhos feita pelos próprios pais estará na origem de cerca de dois terços da fraude de identidade contra jovens adultos, o equivalente a milhões de casos por ano. A informação que basta é sempre a mesma: nome, data de nascimento, escola, nome do animal de estimação.

2eSafety Commissioner australiano

Um investigador estimou que até metade das imagens encontradas em sites de partilha de conteúdo de abuso tinha origem em redes sociais e blogues comuns, publicadas por pais.

3Internet Watch Foundation

Verificou que 88% das imagens sexuais produzidas por jovens sobre si próprios acabam recolhidas e republicadas em sites parasita, fora do sítio original. É um universo diferente das fotos de família, mas mostra a mesma mecânica: uma vez online, deixa de ser teu.

4Brian Krebs (2015)

A investigação de segurança mostrou que o código de barras de um cartão de embarque publicado nas redes sociais dá acesso ao localizador da reserva e, a partir daí, à conta da companhia aérea.

5CNPD (2025)

Abriu um processo de averiguação a uma câmara municipal portuguesa por ter publicado centenas de fotografias de crianças no Facebook sem consentimento dos pais. A imagem de uma criança tem proteção legal, mesmo quando quem publica acha que é só uma foto simpática.

A regra que resume tudo

Não precisas de desaparecer da internet. Eu não vou desaparecer, faz parte do meu trabalho estar aqui.

O que precisas é de trocar uma pergunta por outra. Deixa de perguntar “isto é perigoso?”. Começa a perguntar “isto, somado a tudo o resto, mostra o quê?”.

Fontes

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Continua a seguir o meu trabalho em @mariiana.ai para descobrires mais formas práticas de usar Inteligência Artificial no teu conteúdo e no teu negócio. 🤎

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